:: TESES DE DOUTORADO::
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Nome: André Silva Barreto
- Título da Tese:
Variação craniana e genética de Tursiops truncatus
(Delphinidae, Cetacea) na costa Atlântica da América do Sul.
- Instituição:
Fundação Universidade de Rio Grande (FURG)
- Orientador: Dra.
Maria Cristina Pinedo
- Data de Defesa:
Abril 2000
Foram
analisados 156 crânios de Tursiops truncatus, com o objetivo de
se observar variações na morfologia craniana ao longo da costa
atlântica da América do Sul. Para evitar influências de variações
ontogenéticas foram utilizados apenas crânios considerados adultos,
ou seja, com 5 anos ou mais de idade. A idade foi estimada através da
contagem de camadas de lâminas de crescimento (GLGs) na dentina. Para
exemplares nos quais não existiam dentes disponíveis foram utilizados
caracteres merísticos para se estimar a maturidade do crânio: fechamento
das suturas cranianas, fechamento da cavidade polpar dos dentes e separação
dos alvéolos dentários. Deste modo foram selecionados 81 crânios
para as análises morfológicas. Comparações utilizando
o teste U de Mann-Whitney, entre animais coletados ao norte e ao sul do estado
de Santa Catarina, identificaram diferenças em 57 das 59 variáveis
métricas utilizadas. Os exemplares coletados ao norte de Santa Catarina
(forma norte) apresentaram médias menores do que os coletados ao sul
(forma sul) em praticamente todas as variáveis. As únicas exceções
foram o comprimento do lacrimal, o comprimento do pterigóide, a distância
entre o vômer e a crista do occiptal e as assimetrias craniana anterior
e posterior. Nestas variáveis os exemplares da forma norte apresentaram
médias maiores do que os da forma sul. Análises de covariância,
utilizando o comprimento do crânio como covariante, revelaram diferenças
em 36 das 58 variáveis métricas utilizadas. Dentre as 11 variáveis
merísticas comparadas entre as duas formas, foram observadas diferenças
significativas apenas entre os números de dentes nas mandíbulas
e a forma da reentrância do pterigóide. Análises multivariadas
comparando as duas formas confirmaram a separação observada nas
análises univariadas. Através de uma análise de ordenação
(MDS) utilizando 30 variáveis, pode-se observar uma separação
entre os exemplares das formas norte e sul. Foi realizada uma análise
de similaridade (ANOSIM), utilizando as mesmas 30 variáveis da análise
de MDS, e foram observadas diferenças estatisticamente significativas
entre as duas formas. Ao se comparar machos e fêmeas da forma sul, se
observou a existência de dimorfismo sexual em 11 de 69 variáveis
métricas e merísticas. Uma vez que o dimorfismo sexual poderia
ter influenciado as comparações entre as formas geográficas,
as análises de MDS e ANOSIM foram refeitas, utilizando-se apenas variáveis
não-dimórficas. Os resultados destas análises continuaram
evidenciando diferenças significativas entre as duas formas.
Buscou-se dentro da amostra da forma sul uma possível diferenciação
dos exemplares em duas formas (costeira e oceânica), como foi observado
no Pacífico Leste e no Atlântico Norte Ocidental. Utilizou-se a
presença de cicatrizes do nematódeo Crassicauda sp. no
crânio como um possível indicador da origem dos exemplares. Foram
observadas diferenças significativas entre os animais com e sem cicatrizes
em 7 de 69 variáveis métricas e merísticas utilizadas.
Contudo as análises multivariadas não identificaram diferenças
significativas entre os dois grupos.
Também se buscou analisar a variação existente no material
genético, através da análise do DNA mitocondrial de 17
exemplares. Foram sequenciados 338 pares de bases da região de controle
do mtDNA, identificando-se 21 sítios polimórficos. Observou-se
11 haplotipos na amostra. Uma filogenia dos exemplares foi estimada utilizando-se
o índice de Jukes-Cantor como medida de distância e o método
de neighbour-joining para a construção da árvore filogenética.
A distância média entre os exemplares foi de 2,2% (DP=2,4%), contudo
a distância média entre os exemplares da forma sul foi de 1,1%
(DP=1,0%). Uma análise de variância molecular (AMOVA) entre os
exemplares da forma norte (n=4) e da forma sul (n=13) indicou diferenças
significativas entre os dois grupos.
Com base nos locais de coleta dos exemplares das duas formas, se sugere que
a forma norte habite águas mais quentes, sob influência da Corrente
do Brasil, enquanto que a forma sul habitaria águas mais frias, influenciadas
pela Corrente das Malvinas. A Zona de Transição Subtropical, na
confluência das duas correntes, seria uma posssível área
de contato entre as duas formas. Com base na magnitude das diferenças
morfológicas e distribuição das duas formas recomendo que
seja adotada a denominação de subespécie Tursiops truncatus
gephyreus para a forma sul. O status taxonômico da forma norte só
poderá ser definido após o aumento do número amostral.
A subespécie T. truncatus gephyreus deverá ser reavaliada
no futuro através do aumento do número amostral na área
de contato das duas formas, e caso necessário ser elevada à categoria
de espécie.