:: TESES DE DOUTORADO::
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Nome: Ana Paula Madeira Di Beneditto
- Título da Tese:
Ecologia alimentar de Pontoporia blainvillei e Sotalia fluviatilis
(Cetacea) na costa Norte do Estado do Rio de Janeiro, Brasil .
- Instituição:
Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF)
- Orientador: Dra.
Neuza Rejane Wille Lima
- Data de Defesa:
Julho 2000
Pontoporia
blainvillei e Sotalia fluviatilis são pequenos cetáceos
que coexistem na costa Sul e Sudeste do Brasil, sendo freqüentemente capturados
de forma acidental em atividades de pesca. O objetivo deste trabalho foi caracterizar
o hábito alimentar destas espécies na costa Norte do Estado do
Rio de Janeiro, a partir de espécimens capturados acidentalmente ou encalhados,
entre 1987 a 1998. Três hipóteses foram testadas: (i) as duas espécies
de cetáceos diferem quanto à seletividade das presas, em função
das suas caraterísticas anatômicas e comportamentais; (ii) a composição
da dieta varia segundo as diferenças na distribuição e/ou
na sazonalidade de ocorrência das presas e; (iii) a composição
da dieta varia segundo as diferenças no porte dos predadores, considerando
o sexo e a classe etária. Para tanto, montou-se uma coleção
de referência das presas potenciais, com espécies capturadas por
arrastos de fundo realizados entre 21º35'S e 22º00'S e, analisou-se
o conteúdo estomacal de espécimens de P. blainvillei e
S. fluviatilis, categorizados em machos ou fêmeas e jovens ou adultos,
obtidos nos períodos de primavera-verão ou outono-inverno, na
área I (entre Atafona e o Cabo de São Tomé) ou na área
II (entre o Cabo de São Tomé e Macaé). A coleção
montada contém 60 espécies de teleósteos, três de
cefalópodes e seis de crustáceos decápodes. Dados de biometria
e/ou estruturas de identificação (otólitos e bicos) foram
obtidos para 37 espécies de teleósteos, três de cefalópodes
e uma de crustáceo. P. blainvillei predou preferencialmente os
teleósteos Stellifer sp., Anchoa filifera, Pellona harroweri,
Isopisthus parvipinnis, Cynoscion jamaicensis, Chirocentrodon bleekerianus,
Stellifer brasiliensis e Sardinella brasiliensis, selecionando indivíduos
com porte médio de até 10 cm, e os cefalópodes Loligo
sanpaulensis e L. plei. S. fluviatilis mostrou preferência
pelos teleósteos Trichiurus lepturus, Porichthys porosissimus, A.
filifera, Paralonchurus brasiliensis e Ariosoma opisthophthalma,
selecionando indivíduos com porte médio entre 6,1 e 66,1 cm, e
pelos cefalópodes L. sanpaulensis e L. plei. Em termos
quantitativos, os cefalópodes foram mais representativos na dieta de
P. blainvillei e os teleósteos na dieta de S. fluviatilis.
Os crustáceos foram pouco representativos para ambos os cetáceos.
Em geral, análises comparativas dos resultados confirmaram as hipóteses
de trabalho levantadas. Dois padrões distintos de comportamento alimentar
foram observados entre os pequenos cetáceos. A atividade alimentar de
P. blainvillei parece atender ao fim reprodutivo, pois a ingestão
precoce de alimento sólido (a partir de dois meses de idade, aproximadamente)
pode levar o indivíduo a dispensar os cuidados parentais, formar seu
próprio grupo e iniciar a atividade reprodutiva mais cedo. S. fluviatilis
apresentou um comportamento alimentar que parece ser importante na sua atividade
social, durante o desenvolvimento. Em geral, esta espécie forma grupos
cooperativos para capturar presas e somente indivíduos com idade acima
de sete meses apresentaram alimento sólido em seus estômagos. Na
região estudada, observou-se um reduzido grau de sobreposição
dos recursos tróficos entre P. blainvillei e S. fluviatilis.
As presas destas espécies apresentam baixo valor comercial, são
desprezadas como produto de pesca ou são capturadas com porte diferencial
ao consumido pelos pequenos cetáceos, indicando que a competição
direta com a atividade pesqueira parece ser reduzida.